Resenha: Na Natureza Selvagem

“Happiness only real when shared”.

Christopher John McCandless já nasceu numa família turbulenta, com seu pai ainda casado com outra mulher, mas namorando sua mãe. Billie e Walt acabaram se casando depois e tendo mais uma filha, Carine. A relação de Chris e Carine com seus pais era péssima, principalmente depois que descobriram todas as mentiras que rodeavam o passado de seus pais. Mas os irmãos se entendiam e eram muito unidos, e por isso Carine foi a única da família que recebeu notícias de Chris depois que ele resolveu fugir de casa e viver Na Natureza Selvagem.

“I’m going to paraphrase Thoreau here… rather than love, than money, than faith, than fame, than fairness… give me truth”.

A história de Chris foi, primeiramente, muito bem pesquisada e contada por Jon Krakauer, um escritor americano, logo depois de ler a notícia sobre a morte de um “hitchhiker” ao norte do Monte McKinley, no Alasca. Jon foi atrás de toda a família de Chris, leu cartas, ouviu histórias de todos que o conheciam antes e depois de sair de casa, em meados de 1990. Toda sua pesquisa virou o excelente livro “Into The Wild” (“Na Natureza Selvagem”), muito bem escrito, que contém tanto a vida de Chris na época da faculdade, como também todas as suas aventuras pelos EUA e Alasca, contendo desde mapas a belíssimas e reais descrições sobre os locais por onde o aventureiro passou. Jon também acrescenta no meio do livro histórias de outros aventureiros famosos, alguns que sobreviveram e outros não, todos querendo fugir do “mundo moderno”; e também conta algumas de suas próprias loucuras.

O livro então foi finalmente adaptado para o cinema, numa versão Hollywoodiana dirigida por Sean Penn, em 2007. Sean utilizou todos os cenários reais por onde Chris passou, saindo desde sua formatura na Emory University em Atlanta, sua saída de casa com seu Datsun amarelo, pelo deserto de Las Vegas, Seattle, L.A., e por fim a Stampede Trail, uma longa e perigosa trilha nas proximidades de Healy, norte do Alasca, onde o famoso “Magic Bus” (ônibus de Fairbanks abandonado no alto de uma montanha, que foi usado de moradia para vários aventureiros, inclusive Chris McCandless) está situado até hoje.
Chris (ou Alexander Supertramp, como chamou a si próprio durante seus dias aventureiros longe de casa), no filme, foi brilhanetemente interpretado pelo jovem ator Emile Hirsch. Além de ter ficado muito parecido com o próprio Chris fisicamente (Emile teve que engordar e emagrecer durante as gravações, para mostrar como Chris ficou desnutrido e doente em seus últimos dias de vida), suas expressões mostram a característica principal de Alex Supertramp: o olhar aventureiro e todo o seu desgosto pela sociedade, o mundo capitalista, seus pais e todas as coisas materiais que não lhe eram importantes. O filme também conta com as excelentes atuações de Marcia Gay Harden e William Hurt, fazendo os pais de Chris, Catherine Keener como a amorosa hippie Jan, Kristen Stewart cantando e tocando violão, e Hal Holbrook, que concorreu ao Oscar pela sua interpretação do simpático Ron Franz, a última pessoa que conviveu com Chris e se apegou muito ao menino, pedindo até para adotá-lo como seu neto.


“The freedom and simple beauty is too good to pass up…”

Outro ponto forte, talvez o mais forte de todo o filme, é a trilha sonora. Inteiramente composta por Eddie Vedder, líder do Pearl Jam, as músicas dramáticas, praticamente inteiras tocadas só no violão ou ukulele, dão o clima do filme. A voz potente e marcante de Vedder junto com suas letras escritas todas baseadas no roteiro do filme, ganham as cenas em que Sean Penn escolheu só mostrar paisagens deslumbrantes, rios correndo, animais, ou até Chris observando a natureza em que escolheu viver. A tema, “Guaranteed”, ganhou o Globo de Ouro de Melhor Canção Original. Sem dúvida nenhuma uma das melhores trilhas já feitas para o cinema, o álbum foi o que decolou a carreira solo de Eddie Vedder, que gostou tanto da ideia que começou uma turnê, gravou um DVD e mais recentemente lançou outro álbum com músicas de sua autoria e alguns covers. Todas as faixas são tocadas no ukulele, o que levou ao nome do album “Ukulele Songs”, contando com a participação de alguns cantores também amigos de Vedder como Glen Hansard, líder do The Frames e da dupla The Swell Season.

Uma história sem dúvida tocante, até mesmo para aqueles que não gostam ou não entendem as atitudes de Chris McCandless e seus pensamentos um tanto quanto egoístas. Chris morreu sozinho, dentro do ônibus abandonado no meio do Alasca, mesmo sendo uma época mais “quente”, sem ter muita experiência com a caça, portanto sem muita opção de comida, vivendo só de pequenos animais, algum arroz e algumas sementes, que no fim foram as causadoras de sua morte. Chris, já um pouco desnorteado, confundiu uma simples raíz de batata selvagem e, pelo que tudo indica, foi o ponto final de sua vida: envenenamento. Sua única companhia eram os livros de filósofos naturalistas e seu diário, em que contava cada fato de seus 113 dias no Alasca selvagem. O seu maior sofrimento foi a solidão. Apesar de estar vivendo o que queria viver, sem todos os luxos da civilização, Chris percebeu que nada daquilo fazia sentido se não fosse compartilhado com alguém. Em suas poucas fotos que tirou durante sua viagem final, McCandless conseguiu ainda assim mostrar o quanto estava feliz, apesar dos lamentos em seu diário e seu último bilhete, deixado no ônibus alguns dias antes de sua morte:

“I have had a happy life and thank the lord. Goodbye and may god bless all!”

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